Especialistas detalham como os cachorros podem ser fundamentais para a saúde e citam casos impressionantes de transformação de vidas
Eles são muito mais do que os melhores amigos do homem. Nos últimos anos, estudos apontaram como os cães treinados podem ser essenciais para auxiliar na descoberta de doenças de seus donos, sendo conhecidos até mesmo como “médicos de 4 patas” em diversos contextos clínicos.
De acordo com o psiquiatra Gilson Hiroshi Yagi, o olfato altamente apurado, combinado com a capacidade de formar vínculos emocionais profundos, tornou os animais aliados poderosos na medicina preventiva, no monitoramento de doenças e em intervenções psicoterapêuticas.
“Pesquisas mostram que cães são capazes de detectar compostos orgânicos voláteis (VOCs) liberados por células tumorais. Um estudo publicado no Journal of Breath Research revelou que cães treinados identificaram com mais de 90% de acurácia casos de câncer de pulmão por meio da inalação de amostras de ar expirado dos pacientes. Estudos semelhantes demonstraram resultados promissores para câncer de mama, próstata, entre outros”, cita o médico.
Recentemente, o cinema brasileiro se rendeu à causa e trouxe a história romantizada de “Caramelo”, longa que escalou rapidamente ao topo da Netflix ao contar a trajetória de um chef que redescobre o sentido da própria vida graças ao vínculo improvável com um vira-lata de rua. Na montagem, o cão ajuda o protagonista a descobrir um câncer raro e o auxilia em busca da cura e em sua nova rotina.
“Claro que como obra cinematográfica, podemos dizer que o filme é lindo e toca qualquer pessoa que já teve um vínculo forte com um animal. Mas o público precisa entender que detecção médica não é milagre, é ciência. Existem protocolos, amostras, repetição, testes controle e acompanhamento profissional. Nada do que fazemos é improviso ou intuição do cachorro”, explica Glauco Lima, treinador reconhecido na área de cães de alerta médico e biodetecção, que acompanha de perto a evolução dessa tecnologia no Brasil.
Tanto para o especialista quanto para o Dr. Yagi, na vida real são possíveis diversas aplicações desses animais tanto para a detecção da doença quanto no acompanhamento com ajuda no tratamento. “Existem cães de alerta diabético treinados para detectar mudanças no odor corporal relacionadas a flutuações glicêmicas, por exemplo. Uma publicação do Diabetes Care demonstrou que os cães antecipam eventos hipoglicêmicos com alta sensibilidade, oferecendo segurança adicional a pacientes insulino-dependentes. Até mesmo alertas para crises epilépticas já foram relatados em estudos”, explica o psiquiatra.
*Interação guiada resulta em melhor qualidade de vida*
De acordo com o médico, os cachorros treinados podem ser considerados como agentes terapêuticos promissores. Além disso, ele destaca que, em alguns transtornos psiquiátricos e do neurodesenvolvimento, diversos estudos documentam os benefícios psicoterapêuticos da presença dos animais.
“Pacientes com autismo, transtornos de ansiedade, depressão e estresse pós-traumático (TEPT) apresentam melhora em parâmetros neuroendócrinos, com redução do cortisol e aumento da ocitocina após sessões com cães. No caso de TEPT, especialmente em veteranos militares, cães de suporte emocional contribuem para reduzir pesadelos, crises de ansiedade e isolamento social”, defende.
Ainda, em outras áreas como na Reabilitação Física e Estímulo Motor, ou seja, na fisioterapia, os cães promovem a execução espontânea de movimentos, melhorando a adesão terapêutica e os resultados funcionais. “Um estudo da Frontiers in Veterinary Science mostrou que pacientes com sequelas neurológicas obtiveram progresso mais rápido quando integrados a sessões com cães de terapia”.
Para Glauco Lima, treinador profissional de cães de assistência há mais de 30 anos, os benefícios desse tipo de conduta são imensuráveis. Premiado, o especialista é referência quando falamos em cachorros de alerta médico na América do Sul e Europa. “O que me move é a ideia de que os cães são os guarda-costas da saúde humana. Eles detectam crises, acalmam, previnem recaídas e resgatam o afeto. As vantagens vão além da expectativa e são notadas não só pela pessoa doente, como também por todos ao seu redor”.
Cães com esse treinamento são preparados para: deitar ao lado da pessoa durante uma convulsão para evitar lesões, posicionar o corpo entre a pessoa e o chão para amortecer quedas, permanecer ao lado do tutor durante toda a crise para oferecer suporte emocional, acionar dispositivos de emergência para alertar familiares ou cuidadores, enfim, são verdadeiros anjos que monitoram o dono a todo instante.
*Com a palavra, uma tutora que tem a vida salva por sua cadela*
Mariana Ruic teve sua vida mudada aos 42 anos por uma pet mais que especial. Diagnosticada com Diabetes tipo 1 aos quatro anos de idade e, posteriormente, com Síndrome de Wolfram, ela encontrou uma nova forma de lidar com os desafios da doença, contando com a ajuda da Granola, uma Golden de quase 2 anos, treinada para detectar variações de glicose no sangue.
Por indicação de uma renomada veterinária, a Dra. Aracy Oliva, a publicitária que vive em São Paulo conheceu o trabalho do adestrador Glauco Lima e iniciou o treinamento. “O trabalho do Glauco é essencial em minha vida porque a interação com a Granola mudou meu dia a dia e de toda nossa família. A Granola me dá uma patada no joelho quando é hipoglicemia e no pé quando é hiperglicemia. Isso é superimportante, principalmente à noite, quando estou dormindo. Às vezes, a pessoa não acorda e pode até morrer. Ela literalmente salva a minha vida todas as noites”, explica Mariana.
Por conta da baixa visão, a Golden também auxilia a tutora na mobilidade. “Muitas vezes tenho problemas de equilíbrio e ela me ajuda a me estabilizar e me acompanha em todas as atividades. É uma parceira de vida que tenho e prezo muito”. Mariana utiliza sensores de glicose, mas reforça que o instinto da cadela é incomparável. “Eu uso tecnologia, mas a Granola é mais eficiente. Ela prevê quando a glicose vai abaixar ou subir, sente o cheiro e me alerta antes mesmo do sensor. É impressionante e isso tem mudado minha rotina e a da minha família. Me traz conforto e mais segurança, além de apoio o tempo todo”, afirma emocionada.
*Veterinário ajuda a treinar pet para alerta de diabetes*
Em outro projeto, Glauco Lima adestrou uma fêmea da raça Australian Catle Dog para o alerta médico de diabetes, o mesmo citado no caso da tutora Mariana. Antes de fazer o processo com a Golden, o adestrador formalizou a Guria como primeira cadela com treinamento completo no Brasil. O médico veterinário e professor Regis Christiano Ribeiro acompanhou o treinamento do início ao fim e aprova a conduta.
“Nós recriamos esse odor através de amostras que vamos desenvolvendo conforme o treinamento que é constante, e comparamos os momentos de crise acusados pela medição da glicose, com as reações anteriores do cão a esse evento. Geralmente, o local em que mais exalamos esse odor fica perto das panturrilhas e na parte de trás da perna e a cadela, por instinto, checa primeiro essas regiões, usando o faro para verificar se algo está errado com o tutor”, relata Regis.
No caso da Guria, ela é treinada para apontar para o tutor que está sentindo algo errado pelo olfato, assim ele já se prepara para uma possível crise. Em comandos básicos a cadela ainda pega a necessaire de cuidados médicos, leva água e protege a pessoa até que seja ajudada (quando a crise ocorre, por exemplo, no meio da rua). Ainda, durante o sono, se ela perceber alteração da glicose, imediatamente ele acorda o dono, para que ele possa tomar providências e equalizar o mal estar, já que é comprovado que crises no momento de descanso são as mais perigosas.
Para o professor e doutor em Veterinária, os brasileiros precisam compreender que a relação humano e pet vai muito além do que se imagina. “É preciso entender que um cão é muito mais que uma companhia: ele é uma vida que chega para mudar a sua, dos seus familiares e amigos. Aquela história de ensinar comandos como ‘senta e deita’ já se faz ultrapassada visto que esses animais podem e entendem muito mais do que imaginamos. No processo do treinamento, a Guria demonstrou isso e é nítido o carinho e foco que ela tem em ajudar, diante da situação de desequilíbrio que houver em sua presença”, finaliza o veterinário.
