Ela é dona de uma marca de moda, a Mafe, que vem crescendo cada vez mais
Estatísticas oficiais apontam que a mobilidade social ainda é um desafio complexo. Ainda mais para quem vive em uma favela. Ela cresceu em Osasco, em uma comunidade. Na infância, teve a sensação constante de querer coisas que simplesmente não eram possíveis naquele momento. Crescer em um ambiente assim faz com que você amadureça cedo, mesmo sem perceber. Hoje, ela é dona de uma marca de oversize, a Mafe Company
“Minhas lembranças da infância são poucas, mas algumas ficaram marcadas de forma muito vívida. Uma delas foi a primeira vez que vi um homem armado dentro da comunidade. Eu era pequena, e lembro de correr desesperada, chorando, para contar para a minha mãe. Hoje entendo que aquele medo não era só sobre aquela cena, mas sobre tudo o que aquele ambiente simbolizava.
Somos em cinco irmãos, e a minha família sempre foi atravessada por histórias intensas”,
A primeira grande perda de Maria Fernanda veio cedo demais. Quando ela tinha 11 anos, a irmã mais velha morreu em um acidente de moto, aos 25 anos. Algumas dores não atingem apenas uma pessoa, elas desestruturam famílias inteiras. A morte dela foi exatamente isso. Existe uma vida antes e depois daquele acontecimento dentro da nossa casa.
“Mas, de alguma forma, a vida ainda guardava outros testes. Meu irmão se tornou dependente químico ainda na adolescência, e essa batalha passou a fazer parte da nossa rotina de uma forma brutal. Conviver com a dependência de alguém que você ama é viver em estado constante de alerta. E nunca saber quando será a próxima ligação, a próxima recaída, a próxima urgência”.
Eu revela que viveu cenas que jamais imaginou viver. “Já presenciei mais de cinco overdoses dele, onde eu tive que correr e “salvar” a vida dele. Em uma delas, ele estava desfalecendo, enquanto meus pais estavam em choque, completamente sem reação. Já encontrei meu irmão após uma tentativa de suicídio, com os pulsos cortados. Minha mãe sempre me ligava primeiro, porque eu era quem morava mais perto mas, no fundo, acho que porque eu sempre fui a pessoa que precisava agir, sempre tive facilidade de guardar meus sentimentos no bolso e cuidar de todos”.
Até hoje, durante cerca de 10 anos, ela e minha irmã o ajudam financeiramente no tratamento dele, pagando clínicas de recuperação. E essa luta nunca realmente terminou. Até hoje ele enfrenta essa dependência, entre internações, fugas e recomeços dolorosos.
“Olhando para trás, percebo que a vida me empurrou para um lugar de responsabilidade muito cedo. Antes mesmo de entender quem eu queria ser, eu já tinha aprendido a lidar com perdas, urgências e o peso de tentar sustentar emocionalmente pessoas que eu amava. Talvez por isso eu nunca tenha sido o tipo de pessoa que espera a vida acontecer. Sempre existiu em mim uma inquietação muito grande, uma necessidade quase instintiva de construir algo melhor”.
A vida profissional da empresária começou longe da moda. Ela entrou na engenharia quase por acaso. Começou trabalhando na recepção de uma empresa e, em menos de um mês, foi promovida para dentro da área da engenharia.
“Depois migrei para o planejamento de obras, onde permaneci por 10 anos. Foi uma experiência transformadora. A engenharia me ensinou sobre estrutura, estratégia, disciplina e execução. Me ensinou que grandes construções começam no invisível, muito antes de ganharem forma. E talvez, sem perceber, eu já estivesse me preparando para construir algo meu”.
Mas antes de qualquer estabilidade profissional, a maternidade chegou para ela, aos 21 anos. A gestação de Manuela foi extremamente difícil. Ela trabalhava todos os dias, enfrentava longos trajetos de trem e ônibus, passava mal no caminho, vomitava diversas vezes e fazia consultas médicas sozinha, muitas delas longe de casa.
Existe uma solidão muito particular na mulher que precisa continuar funcionando mesmo quando o corpo pede pausa.Tive ajuda de forma muito limitada ao longo da criação dela, e embora eu tenha vivido um relacionamento de 10 anos, grande parte das dificuldades que enfrentei ali ficaram em silêncio por muito tempo. Minha família só soube da dimensão real de muitas coisas quando eu já tinha tomado a decisão de me separar, alugado um apartamento e escolhido recomeçar sozinha com a minha filha.
Antes de encontrar o caminho, Maria Fernanda tentou muitos outros. Já foi manicure, revendeu roupas, vendeu óculos do Brás, teve loja online revendendo peças, investiu em cursos, se especializou como personal stylist e atendeu muitas mulheres.
“Sempre existiu em mim essa inquietação criativa, mesmo quando a vida parecia me empurrar para caminhos mais previsíveis. A moda não surgiu como um plano de infância. Ela foi me encontrando aos poucos. Primeiro através da revenda de roupas do Brás, depois através do encantamento por peças bem construídas, tecidos de qualidade, modelagens que realmente transformavam a forma como alguém se via no espelho. Depois veio a consultoria de imagem, que foi cursos que paguei com muita dificuldade e ali eu percebi que roupa nunca foi apenas roupa para mim. Sempre foi expressão, percepção e identidade”, conta.
“E foi justamente nesse período que a vida me apresentou o Carlos, de alguma forma, ele enxergou em mim algo que talvez eu ainda estivesse tentando entender. Quando a ideia da marca surgiu, eu não tinha dinheiro. Nenhum. Eu tinha repertório, vontade, visão, muita estratégia, e uma certeza muito difícil de explicar de que aquilo iria dar certo. Quem fez a primeira grande aposta foi ele, vendeu o apartamento dele para investir em uma ideia que, naquele momento, existia como uma certeza apenas na minha cabeça”.
A MAFE nasceu assim. Nasceu da vivência de Maria Fernanda como consultora, da sua dificuldade em encontrar peças básicas realmente bem feitas, dá vontade de criar roupas com identidade, estrutura e propósito. A primeira peça foi feminina: uma camiseta pensada a partir da necessidade real que ela via nas minhas clientes.
Mas a vida tinha outros planos. A oversized virou o carro-chefe sem querer. “A marca encontrou sua linguagem, o negócio ganhou escala. E aquilo que começou como uma inquietação pessoal começou a se transformar em empresa de verdade. Hoje, olhando de fora, pode parecer apenas uma marca de roupas. Mas, para mim, a MAFE representa muito mais, Ela carrega a menina que cresceu cercada por escassez, a mulher que atravessou perdas profundas, a filha que hoje consegue ajudar financeiramente os pais, a irmã que passou anos tentando salvar alguém que ama, a mãe que precisou amadurecer cedo demais, a profissional que aprendeu a construir com disciplina e a mulher que escolheu recomeçar quando precisou”.
O que mais emociona a empresária olhando para trás não é pensar nas dificuldades. É perceber que, de alguma forma, ela está construindo exatamente aquilo que um dia só existia dentro da minha mente.
“A família que eu sonhei. A empresa que eu quis criar. A relação que construí com a minha filha. A liberdade de poder escolher meus próximos passos. Minha história nunca foi sobre perfeição, nem sobre uma trajetória linear. É até hoje sobre seguir mesmo quando o cenário não parece favorável, a origem explica muita coisa, mas não define até onde alguém pode chegar. E talvez essa seja a parte mais bonita de tudo: perceber que aquilo que parecia improvável um dia, hoje é a vida que eu estou construindo com verdade, com coragem e com muito trabalho”.
*Mayara Fernandes*
