A médica Dra. Isabel Martinez fala sobre a relação entre o alimento e as temidas espinhas na fase adulta
Todo mundo já ouviu falar que chocolate causa espinha. Algumas pessoas acreditam que não passa de um grande mito. Em dezembro de 1969, saiu na JAMA — uma das revistas médicas mais prestigiadas do mundo — um trabalho assinado pelos pesquisadores Fulton, Plewig e Kligman. Sessenta e cinco pacientes com acne moderada receberam ou uma barra com dez vezes a quantidade habitual de chocolate, ou uma barra de aparência idêntica sem chocolate. A conclusão foi categórica: chocolate não tinha relação com acne. Dermatologistas do mundo inteiro passaram a dizer a gerações de pacientes que a culpa era da pele, da genética, do hormônio — mas nunca do doce.
Só que, quatro décadas depois, pesquisadores voltaram a olhar para esse trabalho com outros olhos. Em 2011, uma revisão crítica publicada na revista Clinics in Dermatology, assinada por William Goh, Kalpana Kallianpur, Dominic Chow e colegas, expôs o que eles consideram problemas sérios do estudo original de 1969.
Segundo essa revisão, o estudo foi “possibilitado” — nas palavras dos próprios autores da análise crítica — pela Associação dos Fabricantes de Chocolate dos Estados Unidos. Os participantes eram presidiários adultos jovens e adolescentes, e as idades sequer foram informadas. A barra “placebo” continha gorduras hidrogenadas que podem, elas mesmas, afetar a pele. E variáveis conhecidas de influenciar acne — ciclo menstrual, peso, estresse, uso de cafeína, tabagismo — não foram controladas.
Ou seja: a conclusão que guiou meio século de consultórios tem sido contestada por publicações revisadas por pares na literatura dermatológica da última década.
O que os estudos recentes mostram
Em 2016, um ensaio randomizado cruzado publicado no Journal of the American Academy of Dermatology, assinado por Delost, Delost e Lloyd, comparou chocolate ao leite com uma bala que tinha a mesma carga glicêmica. Em 48 horas, quem recebeu chocolate desenvolveu significativamente mais lesões do que quem recebeu a bala, mesmo com o açúcar e carboidratos equivalentes. Isso sugere, segundo os autores, que há algo no chocolate além do simples pico glicêmico.
E em 2024, saiu o estudo mais bem desenhado até agora sobre o tema, publicado na revista Foods pelo grupo polonês de Daszkiewicz, Różańska e Regulska-Ilow. Noventa e dois pacientes com acne, desenho cruzado, dieta anti-inflamatória de base para ambos os grupos. O acréscimo foi apenas 50 gramas de chocolate 85% cacau por dia durante quatro semanas.
Resultado: em 79 dos 92 participantes, a acne piorou. A severidade das lesões subiu, em média, de 2,5 para 3,4 pontos numa escala de 0 a 5 (p<0,0001). Mesmo com a dieta anti-inflamatória ao redor. Mesmo com chocolate amargo. Mesmo sendo pouca quantidade.
Por que o chocolate pode piorar a acne — o que a ciência atual explica
Segundo a médica Dra. Isabel Martinez, a literatura recente descreve dois mecanismos principais para explicar o que pacientes relatam há décadas:
* Primeiro: o pico glicêmico. Diversos estudos demonstraram que dietas de alto índice glicêmico elevam a insulina e, consequentemente, o IGF-1 — o fator de crescimento semelhante à insulina. Em revisão publicada em 2009 no Experimental Dermatology, Melnik e Schmitz descrevem que o IGF-1 estimula a glândula sebácea a produzir mais oleosidade, aumenta a proliferação das células que entopem o poro e potencializa a ação dos andrógenos. O chocolate ao leite, por sua composição, tem carga glicêmica alta.
* Segundo: a modulação da inflamação. Um estudo de 2013 publicado na revista Cytokine por Netea e colegas demonstrou que o consumo de chocolate, em voluntários saudáveis, alterou a forma como as células de defesa do sangue responderam quando estimuladas pela Cutibacterium acnes, a bactéria da acne — sinal de que o efeito do chocolate na pele vai além do açúcar.
“Esses caminhos podem atuar em conjunto”, completa Martinez.
Segundo a médica, há um agravante que poucos pacientes conhecem. O chocolate ao leite tradicional — o das Páscoas brasileiras — combina os mecanismos anteriores com mais um: o leite.
“Uma revisão publicada em 2025 no periódico Health Science Reports por Telkkälä e colegas, sobre acne em mulheres adultas, resume a literatura sobre leite e acne. Segundo os autores, estudos consistentes desde os anos 2000 mostram que o consumo de leite — independentemente de ser integral, semidesnatado ou desnatado — eleva insulina e IGF-1 em intensidade comparável a alimentos de alto índice glicêmico. Alguns estudos citados na revisão sugerem que o leite desnatado pode ter associação ainda mais forte com a acne, mas os mecanismos ainda são debatidos”.
Ela destaca que uma barra de chocolate ao leite numa pessoa com tendência à acne combina, portanto, múltiplos gatilhos descritos na literatura.
Por que sua impressão estava certa o tempo todo
Dra. Isabel Martinez afirma que a medicina, por muito tempo, descartou essa percepção com base num único estudo cujas limitações metodológicas só começaram a ser discutidas abertamente nos últimos quinze anos.
“Isso não significa que todo mundo que come chocolate vai ter acne. Significa que, para quem já tem pele acneica ou tendência a ela, existe uma base biológica plausível — descrita em múltiplas publicações revisadas por pares — para o que você sempre sentiu. A resposta é individual. Mas o gatilho é coletivo”
A médica listou orientações para quem tem acne depois de comer chocolate:
1. Não é castigo, é fisiologia. O que aconteceu no seu rosto não é falta de cuidado, não é falha de rotina de skincare, não é azar. É o seu sebo respondendo a um pico hormonal que começou no intestino alguns dias atrás.
2. Dá pra acalmar rápido, com método. Protocolos tópicos anti-inflamatórios, ajuste da rotina de limpeza, pausa em produtos irritantes que você normalmente tolera. Em casos mais intensos, associação medicamentosa temporária. A janela de reversão é curta — quanto antes agir, menos lesão residual fica.
3. Acne em adulto não é acne de adolescente. Se você tem mais de 25 anos e está tendo surtos recorrentes, a conversa clínica é outra. Inclui avaliação hormonal, resistência à insulina, rotina alimentar, uso de suplementos, uso de canetas emagrecedoras, estresse. O chocolate é gatilho, raramente é causa única.
A ciência mudou de ideia. A medicina séria acompanha.
Dra. Isabel Martinez diz que a honestidade intelectual da medicina é justamente essa: quando a evidência muda, a conduta muda. A discussão iniciada em 2011 por Goh e colegas abriu espaço para que o tema fosse reinvestigado, e os estudos dos últimos dez anos têm reforçado a hipótese de que existe, sim, uma relação entre consumo de chocolate e piora de acne em pessoas predispostas.
“A paciente que chega hoje no consultório perguntando se foi chocolate merece uma resposta mais sincera do que a que foi dada a sua mãe. Pode ter sido, sim, em parte. E tem o que fazer. A Páscoa não precisa ser vilã. Só precisa ser entendida — e, para quem tem pele acneica, planejada com um pouco mais de cuidado”.
Dra. Isabel deu algumas dicas para quem não abre mão do chocolate:
* O chocolate com percentual maior de cacau e menor teor de açúcar e leite impacta menos do que o ao leite recheado em porção generosa.
* Comer depois de uma refeição completa reduz o pico glicêmico. Hidratação e sono bom, nos dias seguintes, ajudam a pele a metabolizar o estresse.
“E se mesmo assim o rosto surtar — o que é comum e não é seu fracasso — existe tratamento, existe janela, existe caminho. A sua percepção estava certa. A ciência só demorou a concordar”, finaliza.
Dra. Isabel Martinez
Médica — CRM-SP 115398 | Fundadora do CLIMEX®️| Clinica Martinez
@draisabelmartinez
Projeto CLIMEX®️ — longevidade
Este conteúdo tem finalidade exclusivamente educativa e informativa, não substituindo consulta médica. Procure sempre seu médico de confiança.

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