Receber o diagnóstico de diabetes costuma ser um divisor de águas na vida de qualquer
pessoa. No Brasil, a maioria dos casos em adultos acaba sendo automaticamente
classificada como diabetes tipo 2, a forma mais prevalente da doença. No entanto, essa
classificação nem sempre é correta — e pode comprometer todo o tratamento.
De acordo com a Dra. Laura Fernandes, especialista em diabetes e metabolismo, o
diagnóstico de diabetes tipo 2 deve ser feito por exclusão, após descartar outros tipos da
doença que também podem surgir na vida adulta e exigem abordagens completamente
diferentes.
“Nem todo adulto com glicemia elevada tem diabetes tipo 2. Existem outros
tipos de diabetes que passam despercebidos e que, quando tratados de forma
inadequada, levam a um controle ruim da doença e a mais complicações ao
longo do tempo”, explica a médica.
Diabetes tipo 1 também pode surgir na vida adulta
Embora seja frequentemente associado à infância e adolescência, o diabetes tipo 1
também pode se manifestar em adultos. Trata-se de uma condição autoimune, na qual o
próprio organismo passa a atacar as células do pâncreas responsáveis pela produção de
insulina.
“Muitos adultos com diabetes tipo 1 acabam sendo tratados inicialmente como tipo 2, o que atrasa o início da insulina e prejudica o controle
metabólico”, destaca a Dra. Laura.
LADA: o diabetes autoimune silencioso do adulto
Outra condição ainda pouco conhecida é o LADA (Diabetes Autoimune Latente do
Adulto). Ele evolui de forma mais lenta do que o diabetes tipo 1 clássico e, no início,
pode se parecer muito com o tipo 2.
“O LADA engana porque, no começo, o paciente até responde a medicamentos
orais. Mas, com o tempo, a produção de insulina cai e a necessidade de
insulina se torna inevitável”, explica a especialista.
Identificar o LADA precocemente pode ajudar a preservar a função pancreática por mais
tempo e reduzir o risco de complicações.
MODY: quando o diabetes tem origem genética
Há ainda formas mais raras, como o diabetes tipo MODY, de origem genética. Ele
costuma acometer pessoas mais jovens, com forte histórico familiar e sem características
comuns do diabetes tipo 2, como obesidade ou resistência à insulina.
“Em alguns casos de MODY, o tratamento pode ser mais simples, sem
necessidade de insulina, o que reforça a importância do diagnóstico correto”,
afirma a Dra. Laura Fernandes.
Diagnóstico vai além da glicemia
Segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e da Sociedade
Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), o diagnóstico adequado deve
considerar diversos fatores, como:
- idade no momento do diagnóstico
- presença ou ausência de excesso de peso
- histórico familiar
- velocidade de progressão da doença
- necessidade precoce de insulina
- exames específicos, como autoanticorpos e dosagem de peptídeo C
Classificar automaticamente todo adulto com diabetes como portador de diabetes tipo 2
pode atrasar o tratamento adequado e aumentar o risco de complicações cardiovasculares,
renais e neurológicas.
“Em diabetes, mais importante do que dar um nome é entender exatamente
qual tipo aquela pessoa tem. Isso muda o tratamento, o controle glicêmico e a
qualidade de vida”, conclui a Dra. Laura Fernandes.
Entender o próprio diagnóstico é o primeiro passo para um cuidado mais eficaz,
individualizado e seguro — e pode fazer toda a diferença no futuro do paciente

